9 de março de 2014

O filtro do vento

Com um olhar direcionado, prendia-se em si mesmo. Conhecido por saber números, caminhos e ciências, apaziguava-se ao pensar no livro como um mapa. Ora, tratavam-se de incógnitas não descobertas, distâncias misteriosas, fórmulas tão claras... Quanto aos dias, iam passando assim, de forma linear, um após o outro, de cada vez, como diziam os mais sábios, sempre horas tão certeiras, tão nada relativas, pois não havia com o que se relativizar.

            Teve um dia, porém, que se descobriu numa feira. Via pulseiras, colares, muitas e muitas quinquilharias misteriosas. Estava de passagem. E foi nesse momento, olhando aquelas artes, sem entender muito bem o significado de cada uma delas, que recebeu um filtro de sonhos da garota de cabelos vermelhos. Ela lhe disse que faria com que os seus pesadelos fossem todos espantados para longe e assim ele não teria nada que temer.
            “Mas eu nem tenho medo de nada. Nem lembro de sonhos... Isso é besteira!”
            O escudo era a arrogância, brotava por entre os lábios, nos discursos tão ignorantes, por estarem espelhados em tanta razão. A moça riu, usava uma saia que ultrapassava os pés. Ela rodou e rodou, ao ritmo do maracatu que só fazia irritar ao garoto tão ocupado em si mesmo. Cantou versos desconexos, fez malabarismo com os braços, em movimentos complexos de tanto ritmo e paixão.

“Pense como um presente
Pra essa sua vida tão descrente
Do fogo e do ar

Quantos elementos ignora?
Ao estar, assim, aprisionado
Em seu discurso de paz.”
            Ela lhe disse, assim, enquanto continuava a dançar e lhe puxava para si. O garoto, sem jeito, pensava em formas de sair dali, mas estava tão difícil... O envolver da música, os olhos dela, tão verdes... Parecia um elfo, de tão pequena. E ainda assim tão ágil, com uma fala serena, parecia vir de terras distantes.
            “Você é de onde?”
            Ele lhe perguntou, interessadíssimo. Parecia ter perdido as amarras ali, em um dançar tão livre quanto o voar.
            “De onde o vento vem”

            Nessa hora, uma baita de uma ventania passou, fazendo-a sumir dali, enquanto apenas o presente permanecia. O filtro era vermelho e verde, das cores dos olhos e cabelos élficos. Parecia ter a presença dela em energia; e como a moça, também dançava com a brisa, quando o ar insistia em entrar pela janela. E quando o vento chegava, ele sempre dava um pulo na varanda, tentando encontrar a garota de cabelos vermelhos. O assovio anunciava a sua chegada.

1 comentários:

Regina Paula disse...

...de onde vc vem?
Adorei!
quero também participar...
De onde vc vem?...

Regina de Paula
regina de paula

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