15 de novembro de 2012

Tudo bem


Para István Bacsa

            Deitado, a dor tentava me absorver por inteiro, levando-me todo para bem dentro dela, sem poder sair. Começava no peito e ia, ia, ia... Eu tinha vontade de gritar. Despir-me de mim mesmo. Retirar cada órgão, a pele, os braços, o coração e o cérebro. Sem jeito de pensar ou sentir, tudo passaria. Eu seria nada e nada sentiria. Nada, nada, nada... O vácuo sempre atraiu aos curiosos, mais ainda aos perdidos. Nunca sabemos o que desejamos e perseguimos essa ignorância de direção.


            Mesmo por caixas, Renato Russo tentava me consolar. Seus versos faziam todo o sentido e isso só piorava as coisas ainda mais. Essa razão para a ausência de razão. “Nesses dias tão estranhos fica poeira se escondendo pelos cantos.”
            A letra, em si, não me afetava. Era o conjunto todo. A voz, o instrumental, as frases desconexas. Não prestava atenção na linearidade da música. Pegava verbos, substantivos e adjetivos, formando a minha própria ordem. A minha história. “Eu, homem feito, tive medo e não consegui dormir.”
            As paredes vibravam, sentiam também a minha dor. “Mas tudo bem, tudo bem, tudo bem.” Não estava nada bem. E eu chorava... “Lá vem, lá vem, lá vem de novo.” Aquela história.
            Escutei as batidas na porta. Ignorei e sabia que a minha mãe iria entrar. Não demorou e logo vi o seu rosto moreno, a pele delicada, a expressão preocupada. Limpei as gotas da face. Não disse nada. Nem pensei. Estava muito confuso. A linguagem já não servia. Eu só queria mesmo era voltar, quem sabe, para a minha infância. Quando a verdade não tinha aparecido e eu amava aos dois de maneira incondicional. “Quem inventou o amor, me explica por favor.”
            — Você sabe que isso não significa nada, não é?
            Palavras não traduzem sentimentos. “Vamos celebrar nossa tristeza.”
            — Sei — menti — Não dá. Me deixa sozinho, por favor? — mas eu precisava de alguém que dissesse tudo aquilo, toda aquela verdade que eu fingia ser mentira, ou a mentira que parecia verdade, porque eu já não sabia de mais nada, desentendido do próprio eu e da vontade, precisava nascer de novo, viver a mesma história, desvendar a origem já não minha, entender e me desentender daquilo tudo, ignorar o não ignorável, porque já era interno, já era sabido, já era passado, e era um presente tão forte, que os ponteiros do relógio pareciam se estender infinitamente, querendo congelar aquele instante que eu tanto queria superar, fazendo-me pensar naquela figura forte de alguém que já não era referência. Precisava do meu pai. Não do outro, mas o que me ensinara a ser quem eu era. Eu estava fraco.
            Deitei, abraçando o lençol branco e me ausentando da ausência. Precisava embarcar em um sonho profundo e acordar depois, quem sabe, de novo, e de novo, de modo a me acalmar, assim, por dentro, depois de cada amanhã, cada nota musical, cada conselho de Renato. E eu sabia que meu sorriso voltaria, assim como aquele tudo que de repente se transformara em um nada tão profundo, responsável por me capturar, tanto, para um buraco escuro e fundo... E eu sabia...
            “É só o vento lá fora.”

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